quinta-feira, 4 de junho de 2009



Tese de mestrado na USP por um psicólogo


“O homem torna-se tudo ou nada, conforme a educação que recebe”


'Fingi ser gari por 8 anos e vivi como um ser invisível'

Psicólogo varreu as ruas da USP para concluir sua tese de mestrado da 'invisibilidade pública'. Ele comprovou que, em geral, as pessoas enxergam apenas a função social do outro. Quem não está bem posicionado sob esse critério, vira mera sombra social.

Plínio Delphino, Diário de São Paulo.

O psicólogo social Fernando Braga da Costa vestiu uniforme e trabalhou oito anos como gari, varrendo ruas da Universidade de São Paulo. Ali, constatou que, ao olhar da maioria, os trabalhadores braçais são 'seres invisíveis, sem nome'. Em sua tese de mestrado, pela USP, conseguiu comprovar a existência da 'invisibilidade pública', ou seja, uma percepção humana totalmente prejudicada e condicionada à divisão social do trabalho, onde enxerga-se somente a função e não a pessoa. Braga trabalhava apenas meio período como gari, não recebia o salário de R$ 400 como os colegas de vassoura, mas garante que teve a maior lição de sua vida:

'Descobri que um simples bom dia, que nunca recebi como gari, pode significar um sopro de vida, um sinal da própria existência', explica o pesquisador.


O psicólogo sentiu na pele o que é ser tratado como um objeto e não como um ser humano. 'Professores que me abraçavam nos corredores da USP passavam por mim, não me reconheciam por causa do uniforme. Às vezes, esbarravam no meu ombro e, sem ao menos pedir desculpas, seguiam me ignorando, como se tivessem encostado em um poste, ou em um orelhão', diz. No primeiro dia de trabalho paramos pro café. Eles colocaram uma garrafa térmica sobre uma plataforma de concreto. Só que não tinha
caneca. Havia um clima estranho no ar, eu era um sujeito vindo de outra classe, varrendo rua com eles. Os garis mal conversavam comigo, alguns se aproximavam para ensinar o serviço. Um deles foi até o latão de lixo pegou duas latinhas de refrigerante cortou as latinhas pela metade e serviu o café ali, na latinha suja e grudenta. E como a gente estava num grupo grande, esperei que eles se servissem primeiro. Eu nunca apreciei o sabor do café. Mas, intuitivamente, senti que deveria tomá-lo, e claro, não livre de sensações ruins. Afinal, o cara tirou as latinhas de refrigerante de dentro de uma lixeira, que tem sujeira, tem formiga, tem barata, tem de tudo. No momento em que empunhei a caneca improvisada, parece que todo mundo parou para assistir à cena, como se perguntasse: 'E aí, o jovem rico vai se sujeitar a beber nessa caneca?' E eu bebi. Imediatamente a ansiedade parece que evaporou. Eles passaram a conversar comigo, a contar piada, brincar.

O que você sentiu na pele, trabalhando como gari?


Uma vez, um dos garis me convidou pra almoçar no bandejão central. Aí eu entrei no Instituto de Psicologia para pegar dinheiro, passei pelo andar térreo, subi escada, passei pelo segundo andar, passei na biblioteca, desci a escada, passei em frente ao centro acadêmico, passei em frente a lanchonete, tinha muita gente conhecida. Eu fiz todo esse trajeto e ninguém em absoluto me viu. Eu tive uma sensação muito ruim. O meu corpo tremia como se eu não o dominasse, uma angustia, e a tampa da cabeça era como se ardesse, como se eu tivesse sido sugado. Fui almoçar, não senti o gosto da comida e voltei para o trabalho atordoado.

E depois de oito anos trabalhando como gari? Isso mudou?


Fui me habituando a isso, assim como eles vão se habituando também a situações pouco saudáveis. Então, quando eu via um professor se aproximando - professor meu - até parava de varrer, porque ele ia passar por mim, podia trocar uma idéia, mas o pessoal passava como se tivesse passando por um poste, uma árvore, um orelhão.


E quando você volta para casa, para seu mundo real?


Eu choro. É muito triste, porque, a partir do instante em que você está inserido nessa condição psicossocial, não se esquece jamais. Acredito que essa experiência me deixou curado da minha doença burguesa. Esses homens hoje são meus amigos. Conheço a família deles, freqüento a casa deles nas periferias. Mudei. Nunca deixo de cumprimentar um trabalhador. Faço questão de o trabalhador saber que eu sei que ele existe. Eles são tratados pior do que um animal doméstico, que sempre é chamado pelo nome. São tratados como se fossem uma 'coisa'.

*Ser ignorado é uma das piores sensações que existem na vida!


Respeito: passe adiante!



Enviado por Yara

quarta-feira, 3 de junho de 2009



Este é mais um texto que eu escrevi quando eu tinha trinta anos e foi publicado no antigo Sucupiras, além de outros sites, como este. Mais uma vez: está com erros e o estilo é meio frouxo, mas eu procurei manter do jeito que estava.



Na porção nordeste do mundo, há alguns milênios atrás, havia uma tribo bárbara e nômade pertencente à antiga raça dos anões. Esta tribo referia-se a si mesma como Strödia-klan, que significa povo-javali, pois se julgavam similares em muitos aspectos a essa criatura. A região ocupada por esses nômades ainda hoje é chamada por outros povos de Bravária, mas tais anões a chamam de Strödiak, nome de um javali local.


Devido às constantes andanças, as pernas daqueles anões se tornaram ligeiramente mais longas que as dos outros de sua raça, que passaram mais tempo sob as montanhas. Isso fez com que fossem para sempre vistos com desconfiança pelos demais, mas que também os levou a se tornarem os mais adaptáveis, socialmente falando, dos anões que povoam nosso mundo. Essa facilidade em lidar com as outras raças fez com que se tornassem bárbaros mais cultos e bem informados que a maioria, os mostrou o que é a cerveja, que seria uma das paixões daquele povo e plantou as sementes o os retiraria de vez da barbárie, rumo à civilização.


Seus corpos não eram projetados para as longas caminhadas e eles colonizaram muito lentamente sua região, finalmente se estabelecendo próximo à uma grande montanha, parcialmente coberta por uma floresta de coníferas. De lá, a atração natural dos anões pelas pedras os levou a penetrar cada vez mais profundamente naquela que passaram a chamar de Strödia-klan-dûr. Lar-dos-Bravos-do-Povo-Javali, em uma tradução aproximada.


Esse povo se identificava com os javalis por diversos motivos. Os cabelos dos strödia-klan possuíam tonalidades que iam do ruivo ao loiro, na maioria. Eram onívoros com predileção por tubérculos, frutas e verduras. Possuíam estrutura familiar e lutavam em conjunto muito bem, mas igualmente não podiam ser derrubados com facilidade quando sozinhos. Não eram predadores, mas não eram presas fáceis. Se necessário, sua fúria subiria às estrelas. Eram baixos, mas fortes. Suas armas eram pequenas, mas mortíferas. Eram vigorosos, inteligentes e capazes, exatamente como os javalis de sua terra.


Os rituais que envolviam javalis terminavam com um jantar aonde o prato principal era esse animal. Ainda assim os strödia-klan não usavam partes do javali como adorno, ou mesmo a sua pele como roupa ou tambor, pois este é considerado nobre. Os strödia-klan agradeciam ao espírito-javali por manter a unidade da tribo e por partilhar de sua força com eles. Esta festa é chamada wil’dboar. Porco selvagem na língua comum.


Acontece que com o passar dos séculos o ritual simples e bárbaro foi se refinando e a cerveja que era servida junto com o javali assado deveria ser cada vez melhor. Quando passaram a residir na Strödia-klan-dûr e a cultivar plantas para sua subsistência começaram a produzir sua própria cerveja. Como a cerveja deveria ser digna do espírito-javali, eles jamais deixavam de trabalhar no sentido de melhorá-la, deixando a sua cerveja cada vez mais próxima do que se poderia considerar a perfeição. Mais séculos se passaram e era sabido que a cerveja era apreciada por muitas famílias, mesmo fora da festa anual em homenagem ao javali, os mestres cervejeiros se multiplicavam e caiu de vez por terra o tabu de se beber cerveja apenas em ocasiões especiais. Já civilizados, os strödia-klan passaram inclusive a subsistir do comércio da sua cerveja, a Brava, que por ser feita com variedades especiais de lúpulo e cevada e ainda contar com acondicionamento especial na montanha, naturalmente úmida e escura possuía um sabor único.


Mas um fato interessante aconteceu quando de sua chegada à montanha que chamariam de lar. Sozinho e muito velho estava um anão de longas barbas brancas e com conhecimento suficiente para preencher vários livros. Esse indivíduo pertencia a um clã de anões fora completamente exterminado pelos elfos, que partiram após alguns séculos de lutas contra esses anões. O sobrevivente que lá estava ensinou muito aos strödia-klan sobre engenharia, agricultura ao estilo da sua gente, a mecânica das bestas e que deviam ter ódio daqueles que destruíram uma nação sem nem ao menos preservarem seu conhecimento ou sua história. O último destes senhores anões era Stut’Yaku, mas os colonos confundiram com Strödiak e o adotaram como seu primeiro sábio por isso. Hoje ele é lembrado como Strödiak, O Que Já Estava Lá.


Certa vez os elfos assassinos voltaram àquelas paragens e descobriram que esta estava repleta de anões. Mas não estavam preparados para a guerra e foram cercados em um vale e lá exterminados ao longo de algumas gerações de anões. A guerra ensinou muito aos strödia-klan, que haviam perdido aquela selvageria antiga, que conheciam armas modernas, mas que não possuíam a prática necessária para destruir um inimigo acossado rapidamente. Muitos pereceram antes que fossem refinadas as técnicas e morto o último dos elfos. Foi nessa época que, para compensar a superior habilidade élfica em arquearia que Rôm, o Caçador, criou a besta de repetição strödiak e Flip, o Ferreiro, aperfeiçoou o machado do clã.


Civilizando-se cada vez mais e com os principais inimigos destruídos, deixaram de ser guerreiros na maioria, dedicando-se à mineralogia, à engenharia, à forja de armas e armaduras em metal, à manufatura de machados e bestas de repetição, ao manejo florestal na montanha (para não destruir o lar dos javalis e nunca terem de buscar madeira muito longe) e também à extração, lapidação, avaliação e negociação de pedras preciosas, além da fabricação da cerveja Brava.


Recentemente surgiu um movimento fascista de limpeza étnica que purgou todos aqueles que não eram strödia-klan puros da Strödia-klan-dûr. Na verdade, não havia muitos mestiços, mas aqueles que não possuíam cabelos e olhos claros foram considerados inferiores e as pressões internas levaram esses a sair de seu lar, sem a necessidade de lutas. Se há uma coisa que jamais aconteceu foi um strödia-klan matar outro e a maioria prefere que continue assim.


Hoje, com suas mulheres e crianças à salvo, os strödia-klan aproveitam suas longas vidas ao máximo, sem esquecer o credo a Olumor, deus dos anões, ou tampouco a sua herança guerreira. Continuam prestando homenagem ao javali, mas sem idolatrá-lo, e começaram a se espalhar pelo mundo novamente, o que impossibilitou um censo que determinaria quantos desta raça notável existem.

terça-feira, 2 de junho de 2009



Na enquete de maio “Um déspota do bem consertaria o mundo?” tivemos um empate entre “Só Jesus salva” e “Não porque não existe isso”. O interessante é que a maior parte das pessoas não sabe o que significa ser déspota.

Tá legal, você poderia dizer “é o mesmo que ditador”, mas o que é um ditador? Basicamente é um governante que faz as coisas funcionarem bem pra ele e que favorece um grupo que pensa parecido para poder ter apoio.

Sendo assim não pode existir mesmo um déspota do bem. Quando falamos nisso estamos querendo dizer que alguém poderia aparecer e resolver as coisas na porrada, porque seu interesse é o interesse do bem maior. O problema é que o “bem maior” é complicado de ser definido, basta você levar em consideração que para uns o paraíso é um lugar cheio de virgens (que logo deixarão de sê-lo, com o perdão do tracadalho do carilho) e para outros o Inferno nem existe.

Dentro deste contexto a gente poderia dizer também que só Jesus salva é uma falácia, pois a idéia de salvação cristã não vale pra todo mundo. Não seria Jesus considerado um déspota quando da sua volta se este se baseia no que seu pai diz, ele que não é o Deus aceito pela da maioria dos povos da Terra?

Não existe déspota do bem e nem Jesus salva, pois o conceito de bem e mal varia muito. Comunismo ou democracia poderiam ajudar, mas quem pode salvar as pessoas de si mesmas? E quanto aos fins justificarem os meios ou você ser o ditador que dá certo, francamente, prefiro não comentar.

Ao mesmo tempo em que há gente por aí que lembra da ditadura militar por aqui como um troço horrível, há os que pensam nela como uma coisa boa que se perdeu. Enquanto havia gente achando Getúlio Vargas maravilhoso um outro foi lá e meteu chumbo quente nos cornos dele.

Essa história de um homem chegar e resolver não vai acontecer nunca, mas também acho que será muito difícil o povo da Terra se unir para resolver qualquer coisa que seja. Sempre há aquele que fica parado e ainda reclama do resultado sem sequer ter dado opinião durante todo o processo...

Quando fiz a pergunta não percebi que seria mais como uma pegadinha e que só havia uma resposta correta. Mesmo assim, se for para falar algo sobre o resultado da enquete, baseado meramente no que as pessoas anseiam, podemos dizer que a maioria não se quer um déspota, mas que Deus mande alguém para nos salvar.

O que eu posso dizer sobre este novo enfoque? Só a gente pode fazer alguma coisa para mudar isso. Você está fazendo a sua parte?

segunda-feira, 1 de junho de 2009



Faz um tempo que eu não posto aqui sobre final de semana, mas é porque eu parei de sair para aqueles mesmos lugares. Parei também porque estive um pouco chateado com aqueles problemas que a gente sabe que no final das contas não tem porque te dar insônia, mas que te mantém acordado mesmo assim.


Não venho nem para escrever sobre o final de semana, mas para dizer obrigado aos meus amigos. Se eu melhoro dessas fossas que eu caio sozinho é porque tenho amigos que me tiram delas só por existirem!


Claro que ao citar o nome de alguns deles posso estar melindrando outros, mas nem preciso fazer isso. Os amigos que são sempre presentes sabem quem são, e os que não estão sabem que são importantes mesmo assim.


Estes últimos dias - sexta, sábado e domingo - foram estranhos, mas seriam tristes se eu não tivesse passado um tempo com amigos e amigas, feitos coisas com eles e mesmo deixar que me apontassem a direção.


Senti a tristeza me rondando o tempo todo, mas como um mateiro experiente que percebe os sinais de uma onça, não me assustei. O que fiz foi me acalmar e enfrentar a ameaça com o conhecimento das suas fraquezas. No meu caso a tristeza passa quando estou cercado de amigos, mas um único grande amigo ou amiga pode fazer a diferença.


Não posso dizer que fiquei feliz de vez ou que fui feliz o tempo todo neste final de semana, mas posso dizer que fiz grandes coisas ao lado de três grandes amigos. Posso simplificar tudo dizendo que fui sexta-feira ao Bar do Cabeludo com o Brother Flávio e Sister Melissa, comprei meu primeiro terno ao lado da Sister Yara e fui ao show do Jota Quest com a Sister Talita e Sister Ioio. Mas como explicar o que é beber ao lado de um irmão como o Flávio, num bar rock&roll, armando coisas para os próximos cinco anos? Como explicar o que eu sentirei sempre que olhar o terno que, além de ser o primeiro que eu compro e ajusto com meu dinheiro, foi escolhido por uma pessoa tão especial quanto a Yara? Não há palavras para dizer como só a Talita consegue me chamar pra algo que eu não gosto e no final eu estou sempre rindo e satisfeito...


É por essas e outras que eu estou deixando de escrever sobre o final de semana ou mesmo de mim, mas antes de impressões que eu tenho das coisas e pessoas. Há também as coisas que eu não posso escrever porque não posso explicar, como o quanto todos os meus amigos são importantes. Você, que é meu amigo ou amiga e que lê isso, saiba que eu gosto de você mais do que você imagina e muito mais do que eu posso te explicar.


Não importa se eu te vejo pouco ou te ligo nunca, no dia em que eu te encontrar vou te abraçar sorrindo.


Não importa se eu te vejo todos os dias, sempre será ótimo te ver.


Os amigos são o que mantém inteiro. Eu já teria quebrado há muito tempo sem vocês. Se eu tenho coragem para enfrentar um mundo que eu não entendo e não gosto – contexto humano, bem entendido – é porque vocês me mostram o lado bom das coisas.


Amo vocês!